Cinco nonagenários paulistanos contam sobre os prazeres que os mantêm na ativa


Ninguém vai dizer que é fácil. Dói aqui, falta energia ali, cai a viscosidade da pele. Enfim, cai tanta coisa. A cabeça já não age mais como antigamente.

É árdua a tarefa de envelhecer. Para além das dores, dos esquecimentos e do excesso de remédios, faltam o respeito da sociedade e políticas públicas para lidar com os desafios relacionados ao avanço da idade.

Este foi o tema do texto publicado na Folha, o qual compartilhamos aqui.

Há uma legião de pessoas que encaram essa batalha com garra. Basta dar uma espiada nas ruas de São Paulo para perceber que os idosos estão por todos os lados –e em número cada vez mais crescente. À espera de alguém que, com polidez, lhes ofereça o assento no metrô; arrasando nas aulas de pilates da academia; nas tardes de domingo, perfumando a sala de cinema ou, nos musicais de teatro, cantando em coro, lá estão eles. É uma turma animada.

Nos quase 500 anos que, juntos, somam os cinco personagens entrevistados para esta edição especial da sãopaulo, estes “mayores” –como os idosos são chamados na língua espanhola– representam uma síntese do chamado envelhecimento ativo.

Dançam, dirigem, fazem o jardim, cozinham, cuidam de casa, dos netos, estudam, aprendem um novo idioma, colocam a cabeça –e o corpo– para funcionar. E assim seguem tocando a vida. De preferência, cercados de gente e sempre dispostos a uma boa gargalhada.

Aqui, eles não pretendem carregar a pecha de “velho ranzinza”. “Senso de humor facilita manter relações. E estar em contato com outras pessoas é um dos influenciadores fundamentais para a gente ter resiliência”, ensina o médico Alexandre Kalache. “Libera serotonina, melhora a autoestima e lubrifica o sistema.”

Doutor em saúde pública pela Universidade de Oxford (Inglaterra), Kalache é fundador do Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da London School of Hygiene and Tropical Medicine. Dirigiu o Programa de Envelhecimento e Saúde da OMS (Organização Mundial de Saúde). Hoje é presidente do Centro Internacional da Longevidade-Brasil.

Aos 72 anos, 43 deles dedicados a estudos do envelhecimento, é uma das maiores autoridades mundiais no assunto, mas não é somente o extenso currículo que o credencia a falar sobre o ato de envelhecer. Desde menininho, Kalache tem simpatia pelo universo dos mais vividos. Na infância, deixava os primos batendo bola no quintal para se juntar aos mais velhos da família, num casarão no Brás, na zona leste de São Paulo.

No meio de 30 idosos, todos imigrantes –sírio-libaneses, gregos, italianos, portugueses–, punha-se a observar, a ouvir, a tentar entendê-los. Ele se lembra das mulheres proseando pela casa, contando histórias de seus países de origem, sob os palpites animados das cozinheiras. Kalache continua escutando, observando e aprendendo.

Quando está no Brasil, visita diariamente a mãe, Lourdes, que completa cem anos no dia 27 de julho. Até hoje, quando ela vê um galã na TV, cutuca quem está por perto e diz: ”’Esse aí é bonitão, hein?'”, conta.

O envelhecimento não acaba com as fantasias. “Continuamos com os nossos interesses. Não é uma questão de libido”, explica o médico. Lourdes, por toda a vida, foi uma mulher ativa. Tocava piano, falava outros idiomas. E, vale lembrar, continua esbanjando vaidade.

Quatro anos atrás, entrou num processo demencial. Kalache explica que, a partir dos 85 anos, 40% dos idosos correm o risco de serem acometidos por doenças como Alzheimer e demência vascular, tipo de perda de memória associada a problemas da circulação do sangue para o cérebro. Quase sempre, diz o médico, é impossível distinguir um do outro.

Já se sabe, porém, que existem maneiras de envelhecer melhor. Otimizar as oportunidades de saúde é uma delas, assim como ampliar o conhecimento, participar ativamente do convívio social e não abrir mão de questões relacionadas à segurança e à proteção.

“À medida que envelhecemos, corremos para passar a vida a limpo”, analisa Kalache. “Queremos perdoar e ser perdoados. Queremos deixar um legado sem rancores.” Quem não quer, não é mesmo?

POPULAÇÃO NA CIDADE EM 2018

12,134
milhões de pessoas

16,8%
(ou 2,044 milhões com 60 anos ou mais)

NO ESTADO

6,6
milhões de idosos

14,6%
da população

PREVISÃO PARA 2030 NO ESTADO

10,2
milhões de idosos

21%
da população

Fonte: IBGE

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