Clientes idosos têm dinheiro, mas não recebem atenção


Os idosos já são mais de 30 milhões, têm a maior renda mensal entre os ocupados de todas as faixa etárias do país, R$ 2.815, contra a média geral de R$ 2.080, segundo dados do IBGE. Apesar disso, brasileiros com 60 anos ou mais se sentem excluídos ou maltratados pelo mercado. Segundo especialistas, a falta de adequação de comércio e serviços para esse público é fruto de desconhecimento e preconceito. Estudo realizado com os cinco maiores institutos de pesquisa do país, feito pela publicitária Ana Gabriela Sturzenegger Michelin, mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP, revela que nenhum deles ouve a opinião de quem tem mais de 55 anos.

— E não há previsão de revisão dessa prática. Ao conversar com gestores de grandes empresas de diferentes áreas, como telecomunicações, alimento, beleza e turismo, eles admitem que há poucos projetos voltados para esse público. As empresas desconhecem todo o capital dessa faixa etária e muitas ignoram até a inversão etária que o Brasil vai sofrer nos próximos anos — diz.

Entre 2012 e 2017, a fatia da população brasileira com mais de 60 anos cresceu cerca de 15%. O incremento da parcela com mais de 80 anos foi ainda maior, 21%. Bem disposta, conectada e antenada, Tiana Simplício, professora aposentada, de 85 anos, é uma das representantes desse público que sente os reflexos de uma sociedade despreparada para lidar com o idoso. Um repórter do GLOBO acompanhou a professora, na última quarta-feira, pelas agitadas calçadas da Praça Saens Peña. Ela foi sucessivas vezes empurrada por andar mais devagar. Recentemente, numa loja de roupas, Tiana diz ter percebido o conflito entre gerações:

— Só tínhamos eu e mais uma outra mulher na fila. Ela era bonita, jovem e loira e estava conversando sobre vários assuntos com a caixa. Era sorriso para cá e para lá. Quando chegou a minha vez, a operadora foi bem ríspida.

Tiana também precisa observar se no local há acessibilidade:

— Aprendi que a gente precisa respeitar os limites do nosso corpo — disse, ao optar por entrar na farmácia usando a rampa.

Segundo Fátima Lemos, assessora técnica do Procon-SP, atendimento e infraestrutura adequados estão entre as queixas mais comuns dos idosos:

— Esse público necessita de um atendimento pessoal, de mais tempo e design adequado de produtos. São consumidores mais vulneráveis e que sofrem diversos abusos nas relações de consumo, desde práticas inadequadas das instituições financeiras até as vendas no varejo.

Foco do varejo ainda é o jovem

O médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC Br), afirma que os brasileiros com 50 anos ou mais concentram, hoje, cerca de 25% do Produto Interno Bruto (PIB), o que corresponde a R$ 1,6 trilhão.

— São pessoas com poder de compra e de influência, mas que são ignoradas por puro preconceito. Em 2050, o Brasil vai ser uma grande Copacabana, com cerca de 30% de idosos. As empresas que quiserem fazer dinheiro têm que atrair os idosos. Serviço, tecnologia e design têm que responder ao envelhecimento da população. O atendimento hoje discrimina.

Para Antonio Carlos Pipponzi, presidente do Conselho do Instituto de Desenvolvimento do Varejo (IDV) e do Conselho de Administração do grupo RaiaDrogasil, as farmácias saíram na frente quando se fala em adequação do atendimento. Segundo ele, o setor hoje valoriza o relacionamento com o idoso. O varejo, de forma geral, admite, está focado no jovem:

— O mercado é muito competitivo e, cada vez mais, o idoso é parte importante, naturalmente, esse movimento de adaptação vai acontecer e vai para além de rampa de acesso e atendimento preferencial.

Nice Cavalcanti, de 85 anos, queixa-se do que se considera básico: o atendimento prioritário:

— Vou muito a mercado, principalmente aos domingos. Reclamei com um gerente, e ele me disse que, no domingo, “quem chegar primeiro é que vai”. Acho que os funcionários deveriam ser treinados a prestar atenção nisso. E quase não vejo prioridade especial para quem tem mais de 80 anos.

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