“Estamos preparados para viver até os 100 anos?”


Denise Mazzaferro, especialista em gerontologia, desafia o público a pensar qual o seu propósito — e o seu plano — para uma vida longa

 

O desejo da longevidade

“Será que estamos preparados para viver até os 100 anos? Se você pensar na pessoa mais velha que você conhece, vai perceber que a longevidade já está entre nós. O futuro já está entre nós. Então, precisamos pensar se queremos chegar aos 100 anos. As pessoas que dizem não querer são as que remetem a velhice à fragilidade, à demência. Quem tem uma referência de alguém que está na ativa diz que quer viver até os 100. Daqui a 20 anos, a velhice vai ser a que vemos hoje? Eu não vou viver essa velhice que conhecemos.”

Este artigo foi escrito por Denise Mazzaferro e publicado originalmente no portal Viva a Longevidade.

 

A vez dos mais velhos

“Tem uma frase do Peter Drucker de que eu gosto muito, na qual ele diz que o grupo populacional de crescimento mais rápido é o que determina a mentalidade e o espírito de uma era. Hoje, o grupo em maior crescimento é o de quem tem mais de 55 anos. Então essas são as pessoas que vão determinar a mentalidade no futuro, e não os jovens.”

 

Tendências do envelhecer

“É importante entender quais tendências vão mudar o nosso envelhecimento. Estamos na fase transitória dessa vida de 100 anos. O mundo mudou, e o envelhecimento também. As pessoas trabalharão até os 70, 80 anos. Muitos pela renda, mas também porque o trabalho faz parte do pertencimento social. Não teremos os mesmos empregos de hoje, vamos ter de nos reinventarmos. Não é só direito do jovem experimentar novas habilidades. O mundo vai ter menos empregos e mais trabalho. Ter uma boa situação financeira não será tudo. Eu trabalho com executivos, e é muito frequente encontrar pessoas que não têm a menor ideia do que vão fazer no dia seguinte da aposentadoria. Eles são aposentados compulsoriamente e não sabem o que fazer depois.”

 

Uma vida multiestágios

“A vida de três estágios — infância, fase adulta e velhice — vai passar a ser uma vida multiestágios, não ditada cronologicamente. Vamos poder voltar à faculdade com 50 anos. Antes tinha idade para estudar, casar, ter filhos. Hoje não tem. O jovem é menos preconceituoso com essa ideia do que a nossa geração. Teremos de experimentar essas mudanças. O jovem não acha estranho conviver com gente mais velha.”

 

O fim da estabilidade

“Nós somos da geração da estabilidade, mas as transações de vida passarão a ser mais corriqueiras. Meu irmão, por exemplo, tem quatro vezes mais experiências profissionais do que eu, que tenho 12 anos a mais do que ele. Fazer essas transições é um luto, uma dor, porque elas parecem um fracasso. Nós não nos preparamos para isso. Por isso, precisamos conversar sobre esse tema, pois teremos de fazer várias transições na vida. No futuro, a recriação vai ser mais importante do que a recreação. Ter opções será cada dia mais valioso. Façam aquilo que hoje não parece fazer sentido nenhum, não sejam imediatistas. Esse aprendizado aumenta seu leque de opções do que se pode fazer no futuro.”

 

As transformações pessoais

“Seremos e pareceremos jovens por mais tempo. As relações familiares e de trabalho se transformarão. Isso já acontece: os almoços de domingo são mais difíceis, nos reunimos com os filhos pelo Skype… A experimentação pessoal vai aumentar. As pessoas já estão falando de poliamor, relacionamento aberto… Em 100 anos, dá tempo de experimentar muita coisa, errar e tentar de novo.”

 

A importância do propósito

“Se nós somos os centenários do futuro, precisamos de planejamento para ter qualidade de vida, saúde física e emocional e as finanças em ordem, mas não é o suficiente. Teremos de ter um projeto. Não é fácil acordar aos 90 anos e não ter um porquê, não ter o que fazer. O que eu mais sinto, quando converso com quem tem mais de 80 anos, é que essas pessoas querem ser úteis, não invisíveis. Eles dizem: ‘ninguém em pergunta mais nada’.”

 

Descobrindo sua identidade

“Quando nos reinventamos, é preciso saber quem nós somos. Se eu não soubesse quem eu era seria, mais difícil ter passado por esse processo. Para construir um projeto, é preciso se conhecer, e muita gente ainda não se conhece. Muita gente cola na identidade corporativa a vida toda. É preciso parar e pensar: o que me mobiliza? O que faz sentido? A partir daí nós nos movimentamos. É preciso juntar razão, coração e ação. É importante entender as possibilidades que vemos para o nosso futuro, em que tipo de projeto queremos estar envolvidos. E saber qual é seu propósito de vida. Eu quero uma velhice melhor para mim e para todos vocês.”

Este artigo foi escrito por Denise Mazzaferro e publicado originalmente no portal Viva a Longevidade.

 


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