Portugal e as intermitências da vida


E então, daquele dia em diante, ninguém nunca mais morreu.

Assim começa um dos mais célebres livros do escritor português José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Literatura.

Nesse romance genial e sarcástico, ambientado num país imaginário, Saramago narra o estranho fenômeno que faz com que as pessoas daquela localidade nunca mais morram, gerando inúmeros conflitos que o autor usa como pano de fundo para fazer uma crítica sagaz ao mundo contemporâneo.

É claro que se trata de uma obra de ficção esse país no qual ninguém nunca morre, mas talvez valha como analogia para a demografia da Europa e sobretudo de Portugal.

O continente Europeu tem visto o gradual envelhecimento de sua pirâmide etária, num fenômeno que deve aumentar ainda mais ao longo dos próximos anos.

Mas em poucos países da Europa esse fenômeno parece tão acentuado quanto em Portugal, fruto da conjunção de três tendências: a maior expectativa de vida da população, que ainda não vive para sempre mas vive cada vez mais, um processo de emigração de jovens causado pela crise econômica que o país experimentou num passado recente, e pela baixa taxa de natalidade, uma das menores de toda a Europa, com média de 1,2 filhos por mulher, índice insuficiente para sequer manter a população estável.

Isso significa que Portugal deve ter uma população com idade média cada vez maior. Projeções para os próximos quarenta anos indicam que o país pode aumentar seu aging índex, dos atuais 131 para algo entre 307 e 464. Isso significa que para cada 100 pessoas com até 15 anos de idade o país pode vir a ter quase 500 pessoas acima dos 65 anos.

Por conta disso, Portugal pode vir a perder de 2 a 4 milhões de habitantes nesse período.

Mais do que o país imaginário de Saramago, no qual ninguém nunca morre, o verdadeiro desafio parece ser reverter a realidade de um país no qual cada vez menos gente nasce.


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